terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
OS PÁSSAROS
(Daniel Johns)
Nem mesmo um banco de praça tão antigo, imerso numa praça armada de árvores, coreto e um tapete de folhas outonais, contaria com uma dessas. Sozinha, a menina escondia seu rosto cabisbaixo sob a enorme aba de um chapéu camponês, que juntamente com o vestido estampado, os joelhos unidos, os pés em par, numa inclinação quase bailarina em relação ao chão, conferia-lhe um ar de idade ainda fresca, daquelas moças onde a tinta da vida ainda não exagerara em seus matizes. Tinha pouca estatura, o que contribuía ainda mais para seu ar juvenil; segurava nas mãos um lírio e ora suspirava, ora chorava baixo, a moça, não o lírio, que fique claro.
Nisso ficou por uns vinte minutos, e deu-se que, a certa altura de uma lágrima que caía, um ancião, daqueles que portam até bengala, acomodou-se com dificuldade ao lado da menina. E ainda que não percebesse um ambiente propício ao diálogo, foi puxando conversa; os velhos são assim, sempre sabem o que fazer, mesmo que na maioria dos casos pareçam apenas uns alienados, já viveram o bastante para saber que alienados são os que ainda estão por viver, e foi dizendo:
“Choras?”
“Não vês?”, respondeu a moça, entre soluços.
“Em verdade, não vejo, porque te escondes debaixo destas abas.”
A moça retira lentamente o chapéu, e finalmente podemos provar aos céticos a existência do sol, que imediatamente se poe a reluzir por entre os fios de ouro que lhe brotavam até o meio das costas.
“E agora, o que vês?”, pergunta a menina ao velho.
“Vejo que tens um lírio nas mãos e nada mais, pois que teu rosto continua a procurar algo no chão.”
“Não procuro nada. Sou apenas infeliz.”
“E que motivos teria alguém para se queixar na idade em que estás?”
“Todos os possíveis. Solidão, falta de sorte, medo do incerto.”
“E por que o lírio?”
“As flores que cultivo são tudo o que tenho.”
“E te atreverias a olhar agora para cima e convencer-te de que estás errada?”
“Por que faria isso?”
“Se não o fazes por ti, faz por um velho cansado que está humildemente a te pedir.”
Timidamente, a moça ergueu os olhos, contraindo-os ligeiramente, tão desacostumados com a luminosidade que estavam. Sua boca abriu-se levemente ao observar um desenho que se estendia sob as nuvens algodoeiras: dezenas de pássaros que se agrupavam em V, voando em direção desconhecida.
"Vês?", perguntou o velho, "Eles não semeiam e não colhem, mas o Criador os alimenta assim mesmo. Não és mais do que eles?"
"Talvez..."
"Cultivas essas flores?"
"Sim."
"Mas nunca observaste como elas vivem. Os lírios não trabalham e não fiam, no entanto nem os grandes imperadores, com toda a sua glória, jamais se vestiram como um deles. Se a Providência tem o cuidado de vestir dessa maneira a erva dos campos, que cuidado não teria Ela ao abraçar uma jovem como tu?"
"O que és, um profeta?"
"Sou apenas um ancião, ainda que os profetas não passassem de amigos, como eu."
"Não sei se creio no que dizes."
"Ao menos teu choro cessou, o que já é alguma coisa. Sem contar que as lágrimas turvavam a cor dos teus olhos, que são nada mais que lírios."
"Ora, o que dizes, sou tímida..."
Fechou e abriu os olhos, num charme modesto, e em menos de dois segundos, nada mais encontrou onde antes havia um velho. Levantou-se espantada, quase gritou, mas conteve-se. Respirou fundo e decidiu deixar, para todos os efeitos, o lírio sobre o banco, como forma de agradecimento. E como se nada houvera, virou-se e partiu, a esperança acesa, o olhar em flor. No assento da praça, as pétalas se agitavam sob a ação dos ventos, enquanto lá de cima, Deus se curvava numa reverência, acompanhando o passo esperançoso da moça, repetindo agradecido que não precisava.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
DIVINO SOUL
Vou te contar porque funciona. Sou pequeno, geralmente um anônimo na multidão, olho para baixo, falo para dentro. Penteio o cabelo da maneira mais comum, as roupas não são lá muito impressionantes, são baratas. O tênis é sempre o mesmo, mas isso é opção, eu adoro aquele, e é com ele que costuma funcionar.
O barulho é muito grande. É noite. Gente conversando, o som alto, casais flertando pelos cantos, um puta-que-o-pariu sem precedentes, eu caminho devagar, chego à frente do microfone, transpasso a alça do instrumento pelo pescoço, ajeito a camiseta, paraliso. Por dois segundos, os meus olhos passeiam pelo ambiente. Observo em segredo um a um, vejo todos aqueles sorrisos, todos incompletos. Sim, incompletos, essa é a palavra. Ainda que a maioria não saiba, falta alguma coisa nas bocas daquelas pessoas, um toque de vida, um motivo, um quê de paixão. Quase sinto pena, mas não. É exatamente nesse momento que minhas mãos se aquecem, uma língua de fogo percorre minha espinha, minha boca se entreabre, conto um, dois, três, e, no quatro, a música começa.
Já não sou mais aquele do primeiro parágrafo. Sou um troço sem nome, um bicho, um instinto cantante, um par de olhos que queimam, um ardor que vai num crescendo, tomando conta de tudo, que não relaxa até a música parar.
Quando a primeira canção acaba, não me sinto capaz de articular muitas palavras cordiais, como faria a maioria dos profissionais que se prezam. Eu, não. Olho para a frente, já não há mais pessoas, não há mais sorrisos, não há mais nada, apenas a próxima canção a puxar meus pés, arranhando meus calcanhares, implorando para sair. É um misto de prazer, angústia, ansiedade, que me rasga, me devora, eu preciso continuar. Feito dois apaixonados que sofregamente aguardam, na chuva, o momento do primeiro beijo, vem a segunda canção, ainda mais forte, ainda mais viva, a se debater na minha voz, que sai não sei de onde.
No momento do terceiro número, já quase posso enxergar alguma coisa, mas os matizes ainda estão um pouco diferentes, as cores ligeiramente trocadas. Canto as primeiras notas, e agora, mais senhor do meu raciocínio, começo a expelir toda a minha tensão, amor, ódio, carinho, raiva, medo, frustração – como uma pintura de Van Gogh, faço minha arte com o cuidado de quem se vinga de algo que não tem nome nem corpo.
Dali em diante, algo me desce, uma espécie de equilíbrio, uma aura que vai se expandindo, abraçando todo o ambiente, e a sensação de que o mundo me pertence golpeia meu peito de forma inapelável. Começo a despir as músicas, e pacientemente observo suas nuances harmônicas a caírem, uma a uma. Vou derramando meus lábios pelas reentrâncias da batida, com pausas eventuais, a canção suspira. As pontas dos meus dedos suavizam seu percurso no instrumento, meus olhos instintivamente se fecham para que o corpo possa melhor sentir as delícias de cada compasso, fluindo por cada poro. Passa a quarta, a quinta, a sexta música, passa o show inteiro, até o grand finale, onde abro os olhos, ergo as mãos e agradeço extasiado, após ter feito amor com a melodia por mais de duas horas, numa cumplicidade que só a morte de uma das partes encerraria. No fim de tudo percebo as palmas tímidas e efusivas, alguns olhares de espanto, alguma gente sem reação: todos, sem o notar, compartilharam da minha diva.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
PARA UMA MENINA COM UMA XÍCARA DE CHÁ
Quietamente, como sempre faço quando percebo a iminência de algum acontecimento que, de tão pequenino, far-se-á único, sentei-me à mesa redonda de adornos simples e creio ter observado aquele rosto branco branco, aqueles cabelos claros claros, por uns dois minutos ou umas duas horas e meia, o que dá no mesmo. Isso, lógico, até que os olhos dela se cansassem de ficar perdidos no ar, na rua do outro lado da vitrine, nos moleques que passavam de lá a cá, batendo no vidro e mostrando o polegar. Eles, os olhos dela, algo gateados, cor de castanheira, cobertos por uma sobrancelha fina, mas firme, como um telhado de folhas de aço a cobrirem uma pedra lapidada pelas mãos da joalheira natureza: esses olhos me agarraram com um misto de severidade e simpatia, de maneira que não pude desviar a vista ou disfarçar, agora era assumir a culpa e enfrentar o que viria a seguir.
“Gosta de chá?”
Foi a pergunta que saiu daquela boca fina, a voz igualzinha ao olhar, doce e algo severa. Meneei a cabeça dizendo que sim, ela fez um gesto curto, tão discreto que a poeira do ar mal se moveu – suficiente, porém, para que eu compreendesse o convite e, quase formalmente, me sentasse à sua frente.
“Então, o que você tem feito?”
Ela perguntou como se nossa conversa já houvesse começado há tempos, ou como se velhos amigos apenas se reencontrassem. Então me dei conta de que estava diante de uma alma essencialmente mulher, que só chama ao diálogo as bocas que já conhece, os olhos que já avaliara com rigor, cautela e discrição. Eis o charme das damas, enquanto estamos a caminhar lado a lado delas nas ruas, julgando que as observamos anônimos e soberanos, um mundo silencioso já aconteceu nos campos do invisível, por meio das suas lentes, poros e narinas. E, ao sentarmos diante delas, já estamos completamente despidos.
Horas escorreram, ela articulava, eu ouvia. De repente trocávamos os papéis, instantaneamente ela se tornava a audiência, eu abria a guarda e deixava minhas histórias, medos, alegrias e fraquezas de homem transparecerem, me atirava aos pés daquela como o filhote à sua mãe.
“Você tem algum sonho que nunca contou a ninguém?”, ela perguntou, quando eu já filosofava gratuitamente sobre algo que nada tinha a ver com a repentina curiosidade da moça.
“Tenho.”
“Diga.”
Quis hesitar, mas era inevitável, já entregara todas as minhas jóias, essa era a pedra que faltava. E eis que, displicentemente, a lancei sobre o pires do chá que, abandonado, esfriava.
“Queria ver a neve. E andar de avião”, eu disse.
“Nunca viu neve na vida? Nem andou de avião?”
“Nunca.”
Ela segurou minha mão de leve, era lisa como pétala. Ligeiro calafrio. Os olhos dela buscaram os meus e assim afirmaram:
“Não se preocupe, será antes do que pensa.”
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
OLHA, MARIA
Apressa, Maria. Tem uma ponte logo ali, vai ver o que tem do outro lado. Não esquece de que perigos são tão parte da natureza quanto tu e eu, mas, ao primeiro sinal de movimentação estranha, corre, o mais rápido que puderes, e só para quando os barulhos desaparecerem e os espinhos rarearem.
sábado, 16 de janeiro de 2010
ACENO
“A saudade é Brigitte Bardot acenando com a mão num filme muito antigo.”
(Zeca Baleiro)
Fica esse desconforto de se projetar à frente uma paixão cansada de se apaixonar, afogada na sensação de já ter encontrado seu porto definitivo e se afogado nas âncoras da sua própria vastidão. Fica essa desesperança, esse mormaço quente a fechar os poros para as ventanias do futuro. Fica essa fé efetiva aos crédulos e endurecidos do mundo, mas impotente aos poetas, aos loucos, aos amores, aos poetas loucos de amor.
Fica esse impulso de jogar a vida ao alto, sem me lembrar de que esta, há muito, já se atirara ao solo, os braços em forma de asa amputada. Fica essa sensação quase palpável do ar quente da respiração ofegante do passado, que dia a dia vai se partindo, a cada suspiro de saudade solto diante de uma frase, uma carta, de uma foto, de um pedaço de vida enquadrado. Fica essa vontade enjaulada, essa fera em descontrole, essa festa na masmorra.
Fica essa falta de adjetivos na boca e esse excesso de poesia nas carícias que não são de ninguém. Fica essa dor de crucificado, esse corpo atirado ao leito de insônia. Fica essa vida que persiste em viver, que não me abandona, nem me responde aos apelos. Fica esse telefone mudo, essa chave que não gira, esse carro sem destino.
Fica essa inutilidade em escrever, essa insignificância de ser, essa perda de valor dos anéis, essa falta de ar pelos dedos que se foram. Fica esse boa-noite parco, esse abraço fosco, esse beijo seco, esse entrelaçar irrisório, essa prosa sem vontade. Fica essa vida besta de Drummond, essa metrópole travestida em cidadezinha qualquer.
Fica essa mesa cheia de contas, esse copo cheio de uma bebida que até então me era estranha, esse choro baixo. Fica essa mão estendida, esse lábio entreaberto e calado diante da falta de opções, esse presente embrulhado, despido de qualquer ansiedade.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
RUA DOS INGLESES
Como naqueles filmes longos em que a história começa no mais remoto deserto para terminar, três horas depois, num grande complexo da cidade grande, fui apanhado no meio de uma leitura, sentado à mesa, relaxado e dispersivo como sempre, e arrastado pelos corredores do supermercado, morrendo de rir por dentro da impaciência das duas. Elas brigavam, mas era bonito porque a cada briga era como se a palavra de uma desse um beijo e um abraço na palavra da outra. Escolhiam as coisas e eu ia atrás, empurrando o carrinho, respeitando a ordem da natureza: a mulher direciona, o homem faz força. E o filme teve, assim, o seu prólogo.
Na chegada, aconteceu de tudo. Porta de carro novinho que tomba, lata de refrigerante que vaza do nada, gente puxada pelo pé... não isso não aconteceu, deve ter sido do DVD que a gente viu.
Na cozinha, todo mundo fazia alguma coisa. Alguns disparavam aromas de comida pelo ar, outros tiravam fotos, e eu tocava, porque foi isso o que Deus me ensinou a fazer – felizmente Ele me cercou de gente com um pouco mais de talento para a vida prática. Horas transcorridas, jantamos, e eu senti que seria um daqueles jantares que eu tanto espero, mas praticamente nada como. Isso não tem a ver com o gosto das coisas, mas com a minha condição de espírito. E de tão leve que eu estava, pouco ou nada me caberia, qualquer peso extra me devolveria violentamente ao chão, e isso não se deve fazer, nem por toda a fome do mundo.
Na hora do filme de terror cada qual desmaiou para o seu lado, e eu, do chão, lutava para prestar atenção, dividido que estava entre a expectativa da próxima cena e o deleite de provar a seiva da casa alheia, a coisa de me despojar no meio da bagunça, feito adolescente. Lembrar de como isso funciona foi melhor do que ser propriamente um adolescente, época em que se faz de tudo, sem nos darmos conta da sua real singularidade. E passa, como passa a água limpa.
Não dormi a noite toda. Pela primeira vez em anos, não tive vontade, porque a felicidade é a única coisa capaz de fazer o sono parecer desnecessário. Claro que nem todo mundo é louco a ponto de pensar assim, então metade foi embora, outra parte dormiu ali na sala mesmo. Conversei na cozinha, fui para a sala, voltei para a cozinha, toquei baixinho, cantei para dentro. Quando ela apareceu, vassoura na mão, às quatro da manhã, para deixar tudo limpo para o dia seguinte, eu até parei para observar: cada um tem a sua forma de não deixar o dia acabar. Terminada a faxina, ela sentou-se comigo, passeamos por todos os assuntos possíveis, e quando o primeiro sinal de claridade apareceu, fomos para a sala. O filme parecia chegar ao final, o público já se lamentava das poltronas.
Estávamos lado a lado, frente à grande janela que dava para a vista majestosa da cidade. Os outros dois dormiam no chão, ali perto. Era de se fotografar. À medida que falávamos, as nuvens se bordavam de um vermelho celeste, e a luz parecia procurar primeiro o rosto dela, que ia se iluminando como um close que se abre no ápice do melhor discurso do roteiro. Resolvi me calar e acompanhar suas histórias sobre o amor pelos animais, a infância, as idas e vindas de uma existência até então anônima para mim. Enquanto isso, ficava brincando mentalmente com o reflexo de seu rosto na janela, conferindo a simetria dos traços, uma bobeira que me entreteve por toda a alvorada.
